HISTÓRIA E TRADIÇÃO

Três gerações de arte sacra

A TERRA DOS MESTRES

Coronado e as origens da arte sacra portuguesa moderna

Uma Vila, Duas Oficinas, Meio Mundo

A vila de Coronado — em especial a freguesia de S. Mamede — ocupa um lugar singular na história da escultura de arte sacra em Portugal. Foi aqui, no final do século XIX e início do século XX, que dois grandes mestres desenvolveram oficinas que viriam a moldar a devoção de meio mundo.

Na freguesia vizinha de Avioso Santa Maria, Amálio Maia conduzia a firma Maias Irmãos. Em Coronado S. Mamede, José Ferreira Thedim criava peças que ficariam para sempre ligadas ao sagrado — entre elas, a imagem de Nossa Senhora de Fátima que hoje é venerada na Capelinha das Aparições, esculpida pelas suas mãos nesta terra nortenha.

Ambas as oficinas trabalhavam por encomenda, sobretudo para a Casa Fanzêres em Braga e a Casa Estrela no Porto — duas referências incontornáveis no comércio de artigos religiosos da época. Com as aparições de Nossa Senhora em Fátima em 1917, o panorama transformou-se: a procura cresceu, o clero aproximou-se, e estas oficinas tornaram-se centros vivos de uma arte que ganhava um novo pulso espiritual.

Lino Sá Vinhas a escavacar madeira

AVELINO MOREIRA VINHAS

Um mestre do século XX

Folheto publicitário do Estúdio Nossa Senhora de Fátima — Avelino Moreira Vinhas, Lda.
Folheto original do Estúdio N. Sra. de Fátima — Avelino Moreira Vinhas, Lda., em Água Levada, S. Mamede do Coronado. As esculturas chegavam, conforme o calendário litúrgico, a todo o mundo católico — em madeira, mármore e marfim.

Em 1930, um jovem aprendiz de José Ferreira Thedim revelou um talento que ninguém esqueceria. Avelino Moreira Vinhas começou como tantos outros — com paciência, madeira e formão — mas o que imprimia nas suas obras era inconfundível: um sentido contemporâneo da forma que não traía a tradição, antes a renovava.

Fundou e liderou o Estúdio N. Sra. de Fátima, onde chegaram a trabalhar 22 artistas. Da sua oficina saíram algumas das esculturas de arte sacra mais significativas do século XX em Portugal.

As suas obras chegaram ao Brasil, à Europa, aos Estados Unidos, à Índia — e a inúmeros outros lugares onde a fé as chamou. Avelino Moreira Vinhas é hoje considerado uma das maiores referências da arte sacra portuguesa do seu tempo.

UMA LINHA NO TEMPO

Da oficina de Thedim às esculturas de hoje

1917
As Aparições de Fátima Nossa Senhora aparece aos pastorinhos. A devoção cresce em todo o mundo e a encomenda de imagens religiosas transforma as oficinas de Coronado.
A Primeira Imagem José Ferreira Thedim esculpe em Coronado a primeira imagem de Nossa Senhora de Fátima, aquela que hoje é venerada na Capelinha das Aparições.
c. 1920
1930
Avelino Moreira Vinhas Aprendiz de Thedim, funda o Estúdio N. Sra. de Fátima. A sua obra e os seus 22 artesãos espalharão a arte sacra de Coronado pelos quatro cantos do mundo.
Lino na Oficina do Pai Entre 1946 e 1959, Lino Sá Vinhas aprende o ofício ao lado de Avelino, frequentando em simultâneo a Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto.
1946–59
2000
O Encerramento Avelino Moreira Vinhas encerra a oficina por razões de saúde. Em 2020, o espólio é vendido à Câmara Municipal da Trofa. Em 2022, a oficina é definitivamente encerrada.
O Regresso Lino pega em madeira guardada na garagem e começa a escavacar. Percebe que ainda é capaz. Nascem as primeiras esculturas desta nova fase — fiéis ao espírito da oficina do pai.
2023

QUEM SOU EU

Lino Sá Vinhas

Entre 1946 e 1959, ainda criança e depois jovem, aprendi o ofício ao lado do meu pai, nessa oficina que cheirava a madeira e a resina. Em paralelo, frequentei a Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto, onde concluí o curso de escultura decorativa.

A vida levou-me por outros caminhos. Enveredei pelo ensino técnico-profissional e durante anos dei aulas de Trabalhos Manuais na Escola Ramalho Ortigão, no Porto. A escultura ficou guardada dentro de mim, esperando.

Do que restava da oficina do meu pai, trouxe para casa algumas ferramentas e madeiras. Ficaram na garagem, em silêncio, durante meses.

Em 2023, algo se moveu. Peguei numa madeira, comecei a escavacar — e percebi que ainda era capaz.

Desde então, fiel aos modelos e ao espírito da oficina do meu pai, estas esculturas foram nascendo. Apresento-as com orgulho e com alegria. São a minha homenagem a ele, e a todos os que tornaram a arte sacra de Coronado numa referência para o mundo.

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A minha primeira exposição decorrerá em Fátima —
o único lugar onde podia começar.
Saiba porquê →